quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Armarinho

de quantos fios
se tece uma mulher?
são tantos os filhos
os risos
e as falhas

as dores
embaixo das anáguas
as tranças
por cima do cheiro de flores

um vestido enviezado
labuta alegre
todo dia

uma força
borda as mangas
do algodão
dos teus braços

enquanto a cada minuto
mais uma maria
vem ao mundo
para embelezá-lo
de passamanarias

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

MEUS PÉS LÍRICOS

CAMINHAM SOBRE A PONTE 

DO MEU RIO ONÍRICO.
Você marca o território, mas não ocupa.
Saiba que as terras do latifúndio que me pertence
são férteis demais para desperdiçar.
Terra roxa, de sobrar fruto.
Lá não tem monocultura que a deserte.
Talvez não aguentes semear, regar, esperar as colheitas,
suportar as intempéries e entresafras.
Então ao menos respeite minha topografia.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

palavrão

tuas palavras
escritas
faladas

releio
reouço
sem fim
dentro de mim

um terreiro eterno
de cânticos
conhecidos

um mantra
hipnótico

organiza
um estar-no-mundo
no barulho
desse silêncio

agricultores celestiais

a felicidade me pegou no colo
me jogou num barco contigo

numa cantiga de maré
cantamos até o paraíso

nadadores, banhistas, amantes, passantes
encharcaram nossas águas vagas
sem nenhuma pressa de amanhecer
pois uma cobertura de estrelas
tivemos de plantar noites inteiras

depois da colheita o corpo exalou
uma luz verde exausta
porém quente
e eterna
e terna

sábado, 22 de janeiro de 2011

casa

cada vez mais longe
cada vez menos coisa consigo carregas
coisas minhas, coisas atadas em nós

cada coisa que vai
perde-se em meio a outras -
novas e velhas coisas

cada coisa que fica
fica como saudade de coisa
coisa tua
de tu,
sua coisa!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

para quem 
a gente conta o medo? 
ele tem contagem?
uma ponte sem margens
flutua sobre um mar 
que cobre um mundo circular

engendra-se assim 
a ponte sem começo nem fim

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

fonte da juventude

já sei,
me sinto
com você
uma velhinha
daqui trinta anos

não precisamos falar
nem belezar
só queremos ladar
e olhar

(beleza junto é mais mais belo que beleza só)

Guichê

- paga-se pelo excesso de bagagem -

são sacolas
bolsas
mochilas
naftalinas

afundam
o cume dos ombros
comem
o couro das costas

penduram
pertences
fuligens

necessárias
se para o ano que vem
transportadas?

pesam os destinos
nos assentos dos corações marcados
de um aeroporto interditado
por um dilúvio do pó dos séculos
acumulados no ano último

(isso é o que dá
ler Bandeira
no banco de espera
do fim do ano
de uma prateleira)

vestimenta

tu és um soneto clássico
dentro de um terno roto

rimas alinhadas,
mas golas roídas,
os ritmos perfeitos,
e as solas furadas
(gastas pelas lutas
palavradas)

Vou vestir mais leve
tuas palavras poídas.
Vou livrar a forca
de tuas gravatas
até deixar-te nu,
sem palavras

para só assim
te afagar
no pouso dos ombros
nas caligrafias dos lábios -
esses sim
já calados e pelados,
assim tão esperados.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

não quero nenhuma brincadeira
sobre meu jeito de falar ou de ser
nenhum comentário
sobre minhas saias ou meus cabelos.
é tão difícil de entender
que só posso ser inteira
mesmo sendo no seu ônibus
só mais uma passageira?
Nas dobras do tempo
e sobras de relógio - 

folhei uns sebos
colhi uns pães
cantei uns pássaros
medi uns matos
pensei uns amigos

Distraí de mim,
enquanto um rio vital 
me transpassou

um rio que conhece 
delicadeza de margem
e paz de paisagem.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

poema primário

não prometo que aguento a tua espera
mas prometo dedicação a tua presença

não prometo ser sua em toda tua ausência
mas prometo toda entrega em tua presença

fique o tempo que precisar do lado de lá
só não sei como passam as vidas do lado de cá

vá e aproveite o primor de minha generosidade
só não espere que aqui se dura uma eternidade

não me onere com pedidos
e continue sem promessas.
as desculpas são só suas
sobre sua falta de pressa.

só não sei o quanto dura a água da minha tigela
sei que o amor é uma fonte do tipo que um dia seca.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Porra, Humaniza essa Desgraça!

banda de garagem
filosofia de boteco
psicologia barata
poesia de quinta
meia foda

sou P.H.D. na porra toda.


sábado, 25 de dezembro de 2010

herança

talvez eu quisesse 
que vc me amasse
talvez eu quisesse 
que vc me queresse

talvez eu representasse 
apenas uma ancestralidade
de mulheres que queressem
que eu te quisesse

talvez eu parecesse
ao teu lado
apenas uma mulher
que alguém queresse

talvez eu não me importasse
sobre quem queresse
a mesma coisa
que eu quisesse 

talvez elas apenas quisessem
que alguém 
nesse mundo
se queresse

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

amor de pelô

eu pensava
que de tão escravizada
sinhô me escolheria
pra sua preta

eu nem pensava
que eram tão brancas
as tetas pretas

eu nem pensava
que no pelourinho
o tempo precisava
de tantos séculos
pra passar

eu pensava
que mais branca
era a carta
que enegreceria
minha alforria
ansio pelas lambidas
que já lamberam
meus pensamentos.
tão melados.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

bebo, logo danço

bebo logo logo
bebo logo um lago
logo alago,
e alago bela

farinha de milho

uma casa deve ter
cheiro de bolo de forno

toda casa deve ter
feijão com louro no fogo
barulho de panela de pressão

a casa deve ter
aipim com manteiga à mesa
geléia framboesa

na sala deve haver vídeo game
no rádio deve tocar aquela do rei

deve ter vaso de manjericão
no quintal cocô do cão

deve ter a mim
precisa ter você

assim,
mesmo que não porte porta,
a gente pisa um chão

H2O

teu exagero,
gozo transpirado,
inunda todos os tacos
poros 
ladrilhos

após tal hecatombe 
hídrica
meu gozo escoa,
hidráulico,
ralo abaixo

- suspensa a visita do encanador -
há mulheres que respiram
uma meninice
bem no contorno dos lábios
uma sedução pueril

ainda que todos os filhos se escondam
nos pneus abdominais
nos seios fartos

os grisalhos fadam cansaços
de cuidados acumulados de muitas vidas
os olhos ora brilham lustrosos
ora brilham opacos

nas sacolas os ônibus todos
as patroas e os ladrões
de sonhos

no lábio, em seu contorno
na junção do nariz com a boca
ainda sensorialidade
de menina

peço licença ao passar por elas
com o maior respeito
pois tem que ser muito homem
para ter tanto peito

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

cheios e receios

ainda bem
anda bem cheio 
esse peito
 
depois de suas notas
notas surdas
salvas nas mudezas
de meu peito

peito meu
cheio e quieto
ganha cor e recheio
em palavras, revólveres e letreiros

e não há nada mais mundano
peito duro
bunda em cima.
ainda trepo sem precisar de escuro

(lerei só daqui uns trinta ânus)

vamos ver teu pau
o quanto dura

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

conto sem fada

nossa história
é uma anti-história de amor

tem princesas velhas
príncipes mancos
e cavalos nos barrancos

o aluguel do castelo vencido
os ratos fugidos dos porões

os amores antigos -
fantasmas

os fantasmas -
restos dos vivos

no reino tão do avesso
criado por nossas monarquias
o amor começa
quando tudo entre nós
já se acabou

mas um amor
que preenche
alguns cômodos
e acomoda
incômodos



domingo, 5 de dezembro de 2010

pelos pelos da perna

a lâmina nova
devora os velhos pelos
da canela, agora lisa

a única coisa que sei sobre você
é que gosta assim
(mesmo no inverno)

mas faço isso
para que não haja na conversa
uma só farpa de pelo

a escova de dentes,
agora solitária,
me pergunta para onde você foi

aproveita,
conta para ela

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

sorvete

gosto de gostar

de um gosto em que pensar
um gesto de lembrar
um cheiro pra devanear

gosto mesmo
de ter alguém
em quem pensar
alguém pra onde voltar

gosto de construir
por pedaço
esse troço

gosto de gostar
de um gosto
familiar

gosto de pensar
o quanto gosto
quando partes
ou quando ficas

bibir la bida

a piscina coberta do clube
faz uma pausa de parar o tempo
uma fenda
numa tarde quente

esportivos pouco velozes
dançavam nas suas águas
artificiais e limpas

a felicidade de som grave
apertava play no nat king cole

toucas, velhas e sungas
sorriam

era como se uma tela se abrisse
com um filme sueco qualquer

mas não

era a vida
acontecendo

sob meus olhos
sobre os meus narizes

o coração se enche de algum estranho
sei lá o quê

vivo

terça-feira, 30 de novembro de 2010

dezembro chove?

a noite cheira molhado
pela janela de dezembro

prédios desde nascença
- com raízes de bairro -
crescem retângulos furados
e espiam por seus furos olhos

luzes azuis
nas quadradas janelas
espelham corpos horizontais

tão logo amanhece
corpos verticais
correm atrás
de um Papai Noel em fuga

o que será que dormem?
como será que compram?
onde será que sobram?
quando será que doam?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

oração ao são joão das bolas perdidas

mais poesia porra!
mais porra na poesia!
com prazer porra!
com porra porra!

gole

ritualisticamente
tomei o último café
assim que previ o fim

um gosto leve
de fruta viva
recém despencada

agora que acabou
veio vontade
pouca, é verdade

não há como comprar
o que se doa

doa o que houver
deste último gole do café
agora já frio

a pequena colher
- com o resto líquido -
descansa sobre a pia
sem pires

(as fases da alma
necessitam 
da concretude 
dos rituais)

não há o que fazer
fique onde está
a um passo
desabará pelo mar
formado de lodo

depois da insônia
não despertará
do que não se dorme

sonhos vigilantes
imagens remontadas
filmes conhecidos

passados que te pertenciam
histórias conhecidas
rostos familiares
cheiros regulares

agora é assim
desesperos atrozes
te descaminham
de onde nem sabe
para onde foi ou
para onde vai

domingo, 21 de novembro de 2010

oxi


misi fi

é muita mandinga trazê ocê pra mim


haja vela vermeia na encruzilhada

num presta enterrá santo antônio

terreiro diz que já não vale mais

caboclo afirma que já pegô catimbó


amor de um

quando não tem dois

não há galo, galinha, ou melaço

que desata todo esse nó!

domingo poesia

será que já é a hora de pseudônimo?
será que deixei de nascer de mim?

quando será que o poeta vem?
trabalha em feriado santo?

a palavra brota bruta?
a frase já vem riscada?

neruda escrevia sentado?
drummond batia à máquina?

escrever é do tipo que se aprende?
ou será talento que vem de fábrica?

será que não sou mais eu?
ou torno-me em minhas palavras?

em todo caso assino hoje como Clara.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

post

imagina só
guardo aqui
sem tirar o pó
um postal
escrito lá
para você
lá de longe
você noutra
eu na tua


nunca leu
nunca viu
nem sabe
nem eu sei
quando foi
que o amor
pelo mapa
se perdeu

um postal
sem endereço
sem leitor
colado agora
no mural
no avesso
só a cola

ninguém vê
teu texto
tuas lágrimas
só vêem
tuas terras
fotografadas
ao longe
numa Itália
poente e só.
prometo que vou estudar
depois dessa poesia mãe.

só mais uma tá?
amigos parindo livros
outros linguajando nenéns
outros com uma floresta de árvores

uns replantando a colheita

todo mundo regando, junto.

coisa bonita essa crescência

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Bamba

Sujei no samba meu novo sapato

agora com que cara vou pro trabalho?


Foi muvuca, vuco-vuco, esfrega-esfrega

umas branca

umas preta

uns bamba

Umas geladas, suor, empurra-empurra

uns pisões

uns amassões

uns chacoalha


Foi cantoria, foi roda de causo

tinha amigo, tinha hómi, tinha caso

Pandeiro, surdo,

cuíca e política

Sete corda, atabaque,

Agogô e amor


Ai ai ai quanta euforia.

Se sua sola dissesse,

meu pé nunca esquecia.


e o chefe nem se abatia.