sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Armarinho
de quantos fios
se tece uma mulher?
são tantos os filhos
os risos
e as falhas
as dores
embaixo das anáguas
as tranças
por cima do cheiro de flores
um vestido enviezado
labuta alegre
todo dia
uma força
borda as mangas
do algodão
dos teus braços
enquanto a cada minuto
mais uma maria
vem ao mundo
para embelezá-lo
de passamanarias
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Você marca o território, mas não ocupa.
Saiba que as terras do latifúndio que me pertence
são férteis demais para desperdiçar.
Terra roxa, de sobrar fruto.
Lá não tem monocultura que a deserte.
Talvez não aguentes semear, regar, esperar as colheitas,
suportar as intempéries e entresafras.
Então ao menos respeite minha topografia.
Saiba que as terras do latifúndio que me pertence
são férteis demais para desperdiçar.
Terra roxa, de sobrar fruto.
Lá não tem monocultura que a deserte.
Talvez não aguentes semear, regar, esperar as colheitas,
suportar as intempéries e entresafras.
Então ao menos respeite minha topografia.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
palavrão
tuas palavras
escritas
faladas
releio
reouço
sem fim
dentro de mim
um terreiro eterno
de cânticos
conhecidos
um mantra
hipnótico
organiza
um estar-no-mundo
no barulho
desse silêncio
desse silêncio
agricultores celestiais
a felicidade me pegou no colo
me jogou num barco contigo
numa cantiga de maré
cantamos até o paraíso
nadadores, banhistas, amantes, passantes
encharcaram nossas águas vagas
sem nenhuma pressa de amanhecer
pois uma cobertura de estrelas
tivemos de plantar noites inteiras
depois da colheita o corpo exalou
uma luz verde exausta
porém quente
e eterna
e terna
sábado, 22 de janeiro de 2011
casa
cada vez mais longe
cada vez menos coisa consigo carregas
coisas minhas, coisas atadas em nós
cada coisa que vai
perde-se em meio a outras -
novas e velhas coisas
cada coisa que fica
fica como saudade de coisa
coisa tua
de tu,
sua coisa!
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
fonte da juventude
já sei,
me sinto
com você
uma velhinha
daqui trinta anos
não precisamos falar
nem belezar
só queremos ladar
e olhar
Guichê
- paga-se pelo excesso de bagagem -
são sacolas
bolsas
mochilas
naftalinas
afundam
o cume dos ombros
comem
o couro das costas
penduram
pertences
fuligens
necessárias
se para o ano que vem
transportadas?
pesam os destinos
nos assentos dos corações marcados
de um aeroporto interditado
por um dilúvio do pó dos séculos
acumulados no ano último
(isso é o que dá
ler Bandeira
no banco de espera
do fim do ano
de uma prateleira)
vestimenta
tu és um soneto clássico
dentro de um terno roto
rimas alinhadas,
mas golas roídas,
os ritmos perfeitos,
e as solas furadas
(gastas pelas lutas
palavradas)
Vou vestir mais leve
tuas palavras poídas.
Vou livrar a forca
de tuas gravatas
até deixar-te nu,
sem palavras
para só assim
te afagar
no pouso dos ombros
nas caligrafias dos lábios -
esses sim
já calados e pelados,
assim tão esperados.
assim tão esperados.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
poema primário
não prometo que aguento a tua espera
mas prometo dedicação a tua presença
não prometo ser sua em toda tua ausência
mas prometo toda entrega em tua presença
fique o tempo que precisar do lado de lá
só não sei como passam as vidas do lado de cá
vá e aproveite o primor de minha generosidade
só não espere que aqui se dura uma eternidade
não me onere com pedidos
e continue sem promessas.
as desculpas são só suas
sobre sua falta de pressa.
só não sei o quanto dura a água da minha tigela
sei que o amor é uma fonte do tipo que um dia seca.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Porra, Humaniza essa Desgraça!
banda de garagem
filosofia de boteco
filosofia de boteco
psicologia barata
poesia de quinta
meia foda
sou P.H.D. na porra toda.
sábado, 25 de dezembro de 2010
herança
talvez eu quisesse
que vc me amasse
talvez eu quisesse
que vc me queresse
talvez eu representasse
apenas uma ancestralidade
de mulheres que queressem
que eu te quisesse
talvez eu parecesse
ao teu lado
apenas uma mulher
que alguém queresse
talvez eu não me importasse
sobre quem queresse
a mesma coisa
que eu quisesse
que eu quisesse
talvez elas apenas quisessem
que alguém
nesse mundo
se queresse
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
amor de pelô
eu pensava
que de tão escravizada
sinhô me escolheria
pra sua preta
eu nem pensava
que eram tão brancas
as tetas pretas
eu nem pensava
que no pelourinho
o tempo precisava
de tantos séculos
pra passar
eu pensava
que mais branca
era a carta
que enegreceria
minha alforria
eu pensava
que mais branca
era a carta
que enegreceria
minha alforria
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
farinha de milho
uma casa deve ter
cheiro de bolo de forno
toda casa deve ter
feijão com louro no fogo
barulho de panela de pressão
a casa deve ter
aipim com manteiga à mesa
geléia framboesa
na sala deve haver vídeo game
no rádio deve tocar aquela do rei
no rádio deve tocar aquela do rei
deve ter vaso de manjericão
no quintal cocô do cão
deve ter a mim
precisa ter você
assim,
mesmo que não porte porta,
a gente pisa um chão
H2O
teu exagero,
gozo transpirado,
gozo transpirado,
inunda todos os tacos
poros
ladrilhos
após tal hecatombe
hídrica
meu gozo escoa,
hidráulico,
ralo abaixo
há mulheres que respiram
uma meninice
bem no contorno dos lábios
uma sedução pueril
ainda que todos os filhos se escondam
nos pneus abdominais
nos seios fartos
os grisalhos fadam cansaços
de cuidados acumulados de muitas vidas
os olhos ora brilham lustrosos
ora brilham opacos
nas sacolas os ônibus todos
as patroas e os ladrões
de sonhos
no lábio, em seu contorno
na junção do nariz com a boca
ainda sensorialidade
de menina
peço licença ao passar por elas
com o maior respeito
pois tem que ser muito homem
para ter tanto peito
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
cheios e receios
ainda bem
anda bem cheio
esse peito
depois de suas notas
notas surdas
salvas nas mudezas
de meu peito
peito meu
cheio e quieto
ganha cor e recheio
em palavras, revólveres e letreirose não há nada mais mundano
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
conto sem fada
nossa história
é uma anti-história de amor
tem princesas velhas
príncipes mancos
e cavalos nos barrancos
o aluguel do castelo vencido
os ratos fugidos dos porões
os amores antigos -
fantasmas
os fantasmas -
restos dos vivos
no reino tão do avesso
criado por nossas monarquias
o amor começa
quando tudo entre nós
já se acabou
mas um amor
que preenche
alguns cômodos
e acomoda
incômodos
mas um amor
que preenche
alguns cômodos
e acomoda
incômodos
domingo, 5 de dezembro de 2010
pelos pelos da perna
a lâmina nova
devora os velhos pelos
da canela, agora lisa
a única coisa que sei sobre você
é que gosta assim
(mesmo no inverno)
mas faço isso
para que não haja na conversa
uma só farpa de pelo
a escova de dentes,
agora solitária,
me pergunta para onde você foi
aproveita,
conta para ela
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
sorvete
gosto de gostar
de um gosto em que pensar
um gesto de lembrar
um cheiro pra devanear
gosto mesmo
de ter alguém
em quem pensar
alguém pra onde voltar
gosto de construir
por pedaço
esse troço
gosto de gostar
de um gosto
familiar
gosto de pensar
o quanto gosto
quando partes
ou quando ficas
ou quando ficas
bibir la bida
a piscina coberta do clube
faz uma pausa de parar o tempo
uma fenda
numa tarde quente
esportivos pouco velozes
dançavam nas suas águas
artificiais e limpas
a felicidade de som grave
apertava play no nat king cole
toucas, velhas e sungas
sorriam
era como se uma tela se abrisse
com um filme sueco qualquer
mas não
era a vida
acontecendo
sob meus olhos
sobre os meus narizes
o coração se enche de algum estranho
sei lá o quê
vivo
terça-feira, 30 de novembro de 2010
dezembro chove?
a noite cheira molhado
pela janela de dezembro
prédios desde nascença
- com raízes de bairro -
crescem retângulos furados
e espiam por seus furos olhos
luzes azuis
nas quadradas janelas
espelham corpos horizontais
tão logo amanhece
corpos verticais
correm atrás
de um Papai Noel em fuga
o que será que dormem?
como será que compram?
onde será que sobram?
quando será que doam?
terça-feira, 23 de novembro de 2010
oração ao são joão das bolas perdidas
mais poesia porra!
mais porra na poesia!
com prazer porra!
com porra porra!
gole
ritualisticamente
tomei o último café
assim que previ o fim
um gosto leve
de fruta viva
recém despencada
agora que acabou
veio vontade
pouca, é verdade
não há como comprar
o que se doa
doa o que houver
deste último gole do café
agora já frio
a pequena colher
- com o resto líquido -
descansa sobre a pia
sem pires
a pequena colher
- com o resto líquido -
descansa sobre a pia
sem pires
(as fases da alma
necessitam
da concretude
dos rituais)
não há o que fazer
fique onde está
a um passo
desabará pelo mar
formado de lodo
depois da insônia
não despertará
do que não se dorme
sonhos vigilantes
imagens remontadas
filmes conhecidos
passados que te pertenciam
histórias conhecidas
rostos familiares
cheiros regulares
agora é assim
desesperos atrozes
te descaminham
de onde nem sabe
para onde foi ou
para onde vai
domingo, 21 de novembro de 2010
oxi
misi fi
é muita mandinga trazê ocê pra mim
haja vela vermeia na encruzilhada
num presta enterrá santo antônio
terreiro diz que já não vale mais
caboclo afirma que já pegô catimbó
amor de um
quando não tem dois
não há galo, galinha, ou melaço
que desata todo esse nó!
domingo poesia
será que já é a hora de pseudônimo?
será que deixei de nascer de mim?
quando será que o poeta vem?
trabalha em feriado santo?
a palavra brota bruta?
a frase já vem riscada?
neruda escrevia sentado?
drummond batia à máquina?
escrever é do tipo que se aprende?
ou será talento que vem de fábrica?
será que não sou mais eu?
ou torno-me em minhas palavras?
em todo caso assino hoje como Clara.
será que deixei de nascer de mim?
quando será que o poeta vem?
trabalha em feriado santo?
a palavra brota bruta?
a frase já vem riscada?
neruda escrevia sentado?
drummond batia à máquina?
escrever é do tipo que se aprende?
ou será talento que vem de fábrica?
será que não sou mais eu?
ou torno-me em minhas palavras?
em todo caso assino hoje como Clara.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
post
imagina só
guardo aqui
sem tirar o pó
um postal
escrito lá
para você
lá de longe
você noutra
eu na tua
nunca leu
nunca viu
nem sabe
nem eu sei
quando foi
que o amor
pelo mapa
se perdeu
um postal
sem endereço
sem leitor
colado agora
no mural
no avesso
só a cola
ninguém vê
teu texto
tuas lágrimas
só vêem
tuas terras
fotografadas
ao longe
numa Itália
poente e só.
guardo aqui
sem tirar o pó
um postal
escrito lá
para você
lá de longe
você noutra
eu na tua
nunca leu
nunca viu
nem sabe
nem eu sei
quando foi
que o amor
pelo mapa
se perdeu
um postal
sem endereço
sem leitor
colado agora
no mural
no avesso
só a cola
ninguém vê
teu texto
tuas lágrimas
só vêem
tuas terras
fotografadas
ao longe
numa Itália
poente e só.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Bamba
Sujei no samba meu novo sapato
agora com que cara vou pro trabalho?
Foi muvuca, vuco-vuco, esfrega-esfrega
umas branca
umas preta
uns bamba
Umas geladas, suor, empurra-empurra
uns pisões
uns amassões
uns chacoalha
Foi cantoria, foi roda de causo
tinha amigo, tinha hómi, tinha caso
Pandeiro, surdo,
cuíca e política
Sete corda, atabaque,
Agogô e amor
Ai ai ai quanta euforia.
Se sua sola dissesse,
meu pé nunca esquecia.
e o chefe nem se abatia.
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