quarta-feira, 30 de setembro de 2009

se perco o parque


A terra que expeli já era estrangeira sem distância.

O outono fez cair a pele laranja, folha e lenta.

O vento desse cheiro frio mostra o nariz e conserva os dedos ainda verdes. Esses trabalham por despreparo.

Quando transbordam criam nova terra em camadas vulcânicas, em desesperos sobrepostos de força e lava.

A copa insiste em ser folha, que de tão árvore nasceu jasmim. Ainda com perfume fresco de infância presa.

Aos pulos perco o bosque, procurando o caminho estranho.

Não raro no fim daquele passeio encontro a fronteira, essa mesma que me divide em país.

quarta-feira, 22 de julho de 2009


Sobre quando a felicidade abisma o infinito.....

Sobre quando a beleza reflete e é refletida em cada poro de cada montanha....

Sobre quando a quentura adentra meu peito sem se apressar.....
Sobre quando o tempo comove com sua lentidão....

Sobre quando a alma repousa livre sobre a inteireza do nosso olhar....

quinta-feira, 16 de julho de 2009

twitter 1 - gente grande e vacas

só faz sentido escrever se for pra alguém, critério dentro do qual não me enquadro agora. confesso.
em linhas duras digo que você habita o que não sei fazer, o mundo a contemplar, o mar de vazio que jorra de algum lugar.
da vinci não só tinha mil talentos, conhecimentos e intuições, como conseguiu expurgar no mundo.
o que não sei, digo-te, meu interlocutor imaginário.
gosto de imaginar os absurdos que se produzem pela minha cabeça.
o filho que penso em ter sem pai, como o bebê que no meu colo dormia no sonho desta noite.
que um dia vou cantar e cantar.
que estou só, muito só e só assim não sei o que fazer com todo esse tempo que é só meu. pudera eu alguém, como você.
sofro do que imagino que sejas, do fantasma concreto que se torna ao entrar pelos meus portais.
vivo num cinema sem roteiro, quando o centro da cidade está deserto entre às cinco e nove e seis da manhã.
alguma concretude do pão com manteiga que comi hoje me salvou, assim como trabalho.
trabalho pra me salvar. pay the bills, é um mero detalhe.
a água do café que ferve toda manhã faz eu esquecer que o futuro tornou-se presente quando dormi. e que portanto é a hora do plano. plano que já esqueci que nunca tive. fora perdido na primeira curva, deixando cheiro de borracha queimada.
o vazio, eu, você, as contas e o pão (manteiga, não margarina, por favor). é isso que sobra quando passo pela peneira.
da vinci é alma grande, é alma nobre, que consegue não dar vez pra nada disso.
ou então prefiro nascer vaca, como as observei no pasto no último fim de semana. vaca não tem angústia, tenho certeza. pude sentir. talvez o preço da vida lisa pelo pasto seja ter uma alma leiteira. leiteira de humanos, sedentos, mesmo que crescidos esses rebentos.
um restaurante me convida pra jantar, por email. jantar no escuro, sem que eu saiba o que vai entrar pela minha boca. e eu estarei sozinha, sem saber que gosto sentir.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

acordei arrotando bolinhas de beep bop,

mas contive minha escrita caramelo

para que as palavras caíssem com jeito

quarta-feira, 1 de julho de 2009

à PINA BAUSCH

Tem dia de não mais acordar
Pés que vão pra sempre calar
As nuvens hoje se põem a chorar


A essas almas um dia vou me juntar

terça-feira, 30 de junho de 2009

divergir, discernir
como é difícil às vezes saber pra onde ir
como e onde rir....

patetolândia estourada em prosa

sentir com ao contrário

sexta-feira, 26 de junho de 2009

sonhos


Segurava um bebê, que não era meu e pueril!

Não estava mais no meu colo

Procurava desesperadamente pela rua.


A sala não tinha sofá, era tudo no chão.

Ele era enorme,

mas eu sabia que do lado de fora minha irmã me protegia.


O vestido era o mais diferente da festa, era um tutu de bailarina.

Que linda, que sincera!

A bunda ficava bem redonda e tinha meia grossa por baixo.


Ganhei um forte abraço homossexual,

enquanto o bebê sorria,

e as antigas amizades renasciam.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Pedaço

A piscina de trampolim, cujo fundo não se via nem sentia
Onde minhas pernas ficavam soltas e eu pequena
Para que o menino do trampolim saltasse do último
e pudesse afundar o quanto precisasse

Mas eu não me importava
Nadava na piscina com os adultos por perto
mesmo com a certeza que de tão adultos não sabiam nadar
e tão crianças que só sabiam mergulhar

Os domingos de sol eram feitos de água e calor
De piscinas com profundidades inalcançáveis
crianças insaciáveis
diante do disputado x-salada da famigerada lanchonete.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Vivo mesmo das coisas pequenas
Pequenas comidas que cabem nas costas
Pequenos acúmulos para o inverno
Pequenos casulos que servem de abrigo
Pequenos amores que contem qualquer coisa aos meus pequenos ouvidos

Meus pequeninos olhos congelam minúsculas partículas de mundo
tal qual eu posso suportar, sem muito pesar

As operárias contróem um mundo, do tamanho de sua pequenez
A elas não cabe pensar, nem pequeno nem grande.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

M. Mendes

Eu canto Murilo, para que com o passar das horas
me torne rainha deste lugar chamado Abssínia.
Por lunáticos momentos de surrealismo,
controlo a explosão dessa terra cheia de vulcões.

A estrela que engoli
emana em silêncio
o anonimato que me prende a este bordel.

domingo, 7 de junho de 2009

Nelson Rodrigues: "sem alma em jogo não se chupa nem um chicabom"

a sua é mais funda que a pisicina de trampolim do palestra
mais alumiada que o sol de outono incidindo sobre a pompéia
mais alta que a dr. arnaldo
mais bela do que a fera que adormece em ti
cutuque sua alma-fera com todas as varas!

domingo, 17 de maio de 2009

The jazz is not the same anymore.
I heard the trumpet crying on my ears.
The drums get down until they hit the ground.
They played out of tune. But they tried.
It just because you were not there.
But I was. I was there that night.
I was as a foreign.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Chove


Garoa. Sente fina nos cabelos.
Despenca religiosamente do céu, quanto mais deseja que pare.
Já viu assim tempestade, anunciada em luz e trovões.
Conhece-as barulhenta e lenta.

Sobre o guarda-chuva escorregou, anatomicamente.
Parou no chão e se alastrou em forma d'água,
como nunca havia sido tão sem forma. Tão fácil como chuva.
Como é bom chover sobre nós.

Respingou no vidro, em gotas inodoras.
Exasperando como é molhada.

Sei que às vezes prefere tempo bom,
mas também sei o quanto lava tua alma.

Em São Paulo garoa, com a chegada da frente fria.
não
não deixe
não deixe de lembrar
não deixe de lembrar de não esquecer
não deixe de lembrar de não esquecer de mim
não deixe de lembrar de não esquecer de mim feliz com você

quinta-feira, 7 de maio de 2009

assim

As lagartas viram borboletas sem que se faça nada,
mas como se já de ontem esperassem essa surpresa.
Peço a mim mesma complacência, paciência,
porque nessas garrafas moram as dores, novas e carregadas.
Ou antigas e embaralhadas.

De manhã deixo assentar as esperanças, pra saber como gosto.
Como é o gosto difundido pelo corpo, de sensações a desilusões.
Sobra um café ao fundo e ouço o vizinho furar a parede,
Quando aproveito pra entrar, sorrateira, neste oceano.
Nado do nada ao nada.
Experimentando tudo.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

vá borrão, vá até a margem pra ver o que tem,
se no fim do arco-íris as meninas são sereias.
se é que você precisa ser assim.
eu fico por enquanto entre os girassóis do meu jardim.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Recorte de Thaís Figueiredo

Assim, despencante

Eu tenho a parte de um
Hum mil
Agonizante

Sou mais simples que uma ostra
Sou mais cara que um amor-perfeito
Mais profunda que um livro
Mais insone que todos os sonhos
Mais inútil que uma tarde

Desafino, there

já me experimentei coisa
já me experimentei gente
já me dupliquei em mais
já saí e voltei de mim
já não me pertenci
já me agarrei ferrenho
já me vi na lata do lixo
já me vi em berço de ouro
já me envaideci
já me encarneci
já me ri

em ciclo ascendente
espiral amorosa

recoberta deste suor
melodioso
que só assim ouço

algo entre prática lesa e lépida
pra você.
pra mim
nem sempre sou assim
prefiro repouso no jardim

Ode à MACABEA - banda

meu submundo

encontra-se no subsolo da rua augusta

cantando minhas próprias legendas

partilhadas com os melhores homens

cavaleiros, monges e axilas


sempre a tornar-se cada vez mais mundo

nascido do sutil encontro entre:

quatro bocas, um milhão de dentes

ternuras e ranhuras

para fazer possível essa confluência musical dia-lógica

sem qualquer razão

terça-feira, 21 de abril de 2009

Homenagem


Na manhã que se seguiu, vejo folhagens desconhecidas naquela floreira nunca cuidada.
Deixada com sua terra desprezada, dada como morta, incerta, infértil.
Quando alguém noticia que eram folhas, não quaisquer uma, mas de girassol.
No verde central, concentrado de folhas menores, surgem as primeiras colorações amarelas, ainda misturadas às verdes, tímidas, desarranjadas.
Já então vibro com a comprovação do nascimento da flor que segue o sol, aparecida assim sem pai nem mãe, solitária e urbana;
em local tão insólito, concreto; tão floreira de edifício, planejada por alguém de beleza quadrada.
Exibo para outras pessoas, como presente do acaso, do caos, do cosmos, que me mostra, nada mais que ser enorme e flor, seguir a luz e calor à minha janela.
Rego como um ritual diário, que alimenta a ela e a mim, de vida, viço e esperança, de surpresa boa, como remédio cotidiano contra a inércia e o abandono.
Tomo como concretização, como recado, aprendizado, dose de belo amarelo-alaranjado, com folhas-molduras desgrenhadas, humildemente desajeitadas em verde fosco.
Sinto-me o grilo que mora ao lado, alimentando-me dos organismos vivos da interação flor-sol-terra; e só assim poder falar cri-cri-cri.



Dimanche

Queria saber escrever, poder dizer, o que traduz a mim e a você,
expor em silêncio os nossos porquês e a desrazão de ser.
Ando, por saber apenas fazer, em ato heróico,
as coisas engraçadas e escabrosas que procuro dentro e fora da casa.
Coloco o corpo no espaço, com certa ordem, porém em desdestino.
Desenformo meu amor, em forma de gesto, calor, pelas minhas mãos e voz.
Hoje planejo andar, ver e cantar, mesmo que só.
É só assim que sei, antes mesmo de ser alguém.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Pra você

Sou mais simples que uma ostra
Sou mais terna que um champagne
Sou mais cara que um amor-perfeito
Mais profunda que um livro
Mais insone que todos os sonhos
Mais inútil que uma tarde
Mais digna que um pobre gato
Mais sórdida que um seriado
Mais calada que uma alma
Mais inteira mesmo quando caio por descuido
Sou menos eu quando se trata de você.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

JUST ME


sou uma pessoinha que de tão olho

espelho o que há dentro de você


ao ver-se em mim se espantará,

quando então eu permitirei que verse em mim


mas vá devagarinho mocinho

porque apesar de dedeco, sou pequenino

quarta-feira, 8 de abril de 2009

TANTO

Tentei filho

Tentei gato

Tentei cachorro

Tentei adesivo

Tentei namorado

Tentei amigo

Talvez seja minha inesgotável solidão

Tentei andar

Tentei sonhar

Tentei gozar

Tentei entender

Tentei nascer

Tentei esquecer

Talvez seja o inestimável preço por viver

Tentei poesia

Tentei abstrato

Tentei forjado

Tentei pincel

Tentei tocado

Tentei melodia

Talvez seja o tal do inexorável doer

Canso em saber quantas tentativas tenho

Antes ou depois do fim

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Torna-te

Começou assim, devagarzinho, pelo meu dedinho.
Invadiu meus pés, subiu pelas pernas, que endureceram, desesperadas.
Meu tronco, seios, braços e mãos.
Agora os tenho alvos, gélidos neste híbrido morto-vivo.
As costas debaixo do vestido verde claro não dobram mais.
As dobras joelhos e cotovelos ainda articulam, uma parte com outra.
Bem como as dos quadris.
Quando então tu me colocas sentada ou em pé; mas sempre escolhes.
Escuto quão linda eu sou, de tão exato os caquinhos foram colados, de tão perfeitas as curvas, redondos, giros e cores.
Esquecem-me gente de tão coisa que me pareço. De gente faço sentimento, pensamento e falo.
Falo parada, fico com o conforto do não agir, do sem confronto.
Desde anteontem parou no meu pescoço. É de subir.
Cabeça de pessoa, com boca, narinas, orelhas e orifícios. Por enquanto recoberta de pele, quentura e tecitura.
Ainda decido se me resigno ou se sofro, ou se morro antes.
Procuro o Gepeto que me rogou o feitiço ao contrário.
Até lá preparo minha estante, onde moro como coiseira.
Porque desconfio mesmo que até a vida inteira viro de porcelana inteira.
Confiro agora meu sapato, sapato de boneca.

my world

My world is beautiful

Moro aqui e acolá


My world is beautif

Pago bebida barata,

gasto onde urgia.

Urgente eu nascia.


My world is beauti

Minha paisagem é o centro,

mas compartilho o interior da burguesia.

Ode ao anonimato e à alforria.


My world is beaut

Não acompanho a tecnologia,

moro estrangeira, na pátria-tempo que você não entende.

Permaneço no filme antigo,

ao som prosaico da radiola.


My world is (you know)

Espaço de coisa maior do que de gente,

gente desde que coisa. Coisa eminente.


My world

Desodoriza pensamentos que não cabem

Cabo

Assim, despencante


Eu tenho a parte de um

Hum mil

Agonizante


Desafino, there.