segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ode à MACABEA - banda

meu submundo

encontra-se no subsolo da rua augusta

cantando minhas próprias legendas

partilhadas com os melhores homens

cavaleiros, monges e axilas


sempre a tornar-se cada vez mais mundo

nascido do sutil encontro entre:

quatro bocas, um milhão de dentes

ternuras e ranhuras

para fazer possível essa confluência musical dia-lógica

sem qualquer razão

terça-feira, 21 de abril de 2009

Homenagem


Na manhã que se seguiu, vejo folhagens desconhecidas naquela floreira nunca cuidada.
Deixada com sua terra desprezada, dada como morta, incerta, infértil.
Quando alguém noticia que eram folhas, não quaisquer uma, mas de girassol.
No verde central, concentrado de folhas menores, surgem as primeiras colorações amarelas, ainda misturadas às verdes, tímidas, desarranjadas.
Já então vibro com a comprovação do nascimento da flor que segue o sol, aparecida assim sem pai nem mãe, solitária e urbana;
em local tão insólito, concreto; tão floreira de edifício, planejada por alguém de beleza quadrada.
Exibo para outras pessoas, como presente do acaso, do caos, do cosmos, que me mostra, nada mais que ser enorme e flor, seguir a luz e calor à minha janela.
Rego como um ritual diário, que alimenta a ela e a mim, de vida, viço e esperança, de surpresa boa, como remédio cotidiano contra a inércia e o abandono.
Tomo como concretização, como recado, aprendizado, dose de belo amarelo-alaranjado, com folhas-molduras desgrenhadas, humildemente desajeitadas em verde fosco.
Sinto-me o grilo que mora ao lado, alimentando-me dos organismos vivos da interação flor-sol-terra; e só assim poder falar cri-cri-cri.



Dimanche

Queria saber escrever, poder dizer, o que traduz a mim e a você,
expor em silêncio os nossos porquês e a desrazão de ser.
Ando, por saber apenas fazer, em ato heróico,
as coisas engraçadas e escabrosas que procuro dentro e fora da casa.
Coloco o corpo no espaço, com certa ordem, porém em desdestino.
Desenformo meu amor, em forma de gesto, calor, pelas minhas mãos e voz.
Hoje planejo andar, ver e cantar, mesmo que só.
É só assim que sei, antes mesmo de ser alguém.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Pra você

Sou mais simples que uma ostra
Sou mais terna que um champagne
Sou mais cara que um amor-perfeito
Mais profunda que um livro
Mais insone que todos os sonhos
Mais inútil que uma tarde
Mais digna que um pobre gato
Mais sórdida que um seriado
Mais calada que uma alma
Mais inteira mesmo quando caio por descuido
Sou menos eu quando se trata de você.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

JUST ME


sou uma pessoinha que de tão olho

espelho o que há dentro de você


ao ver-se em mim se espantará,

quando então eu permitirei que verse em mim


mas vá devagarinho mocinho

porque apesar de dedeco, sou pequenino

quarta-feira, 8 de abril de 2009

TANTO

Tentei filho

Tentei gato

Tentei cachorro

Tentei adesivo

Tentei namorado

Tentei amigo

Talvez seja minha inesgotável solidão

Tentei andar

Tentei sonhar

Tentei gozar

Tentei entender

Tentei nascer

Tentei esquecer

Talvez seja o inestimável preço por viver

Tentei poesia

Tentei abstrato

Tentei forjado

Tentei pincel

Tentei tocado

Tentei melodia

Talvez seja o tal do inexorável doer

Canso em saber quantas tentativas tenho

Antes ou depois do fim

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Torna-te

Começou assim, devagarzinho, pelo meu dedinho.
Invadiu meus pés, subiu pelas pernas, que endureceram, desesperadas.
Meu tronco, seios, braços e mãos.
Agora os tenho alvos, gélidos neste híbrido morto-vivo.
As costas debaixo do vestido verde claro não dobram mais.
As dobras joelhos e cotovelos ainda articulam, uma parte com outra.
Bem como as dos quadris.
Quando então tu me colocas sentada ou em pé; mas sempre escolhes.
Escuto quão linda eu sou, de tão exato os caquinhos foram colados, de tão perfeitas as curvas, redondos, giros e cores.
Esquecem-me gente de tão coisa que me pareço. De gente faço sentimento, pensamento e falo.
Falo parada, fico com o conforto do não agir, do sem confronto.
Desde anteontem parou no meu pescoço. É de subir.
Cabeça de pessoa, com boca, narinas, orelhas e orifícios. Por enquanto recoberta de pele, quentura e tecitura.
Ainda decido se me resigno ou se sofro, ou se morro antes.
Procuro o Gepeto que me rogou o feitiço ao contrário.
Até lá preparo minha estante, onde moro como coiseira.
Porque desconfio mesmo que até a vida inteira viro de porcelana inteira.
Confiro agora meu sapato, sapato de boneca.

my world

My world is beautiful

Moro aqui e acolá


My world is beautif

Pago bebida barata,

gasto onde urgia.

Urgente eu nascia.


My world is beauti

Minha paisagem é o centro,

mas compartilho o interior da burguesia.

Ode ao anonimato e à alforria.


My world is beaut

Não acompanho a tecnologia,

moro estrangeira, na pátria-tempo que você não entende.

Permaneço no filme antigo,

ao som prosaico da radiola.


My world is (you know)

Espaço de coisa maior do que de gente,

gente desde que coisa. Coisa eminente.


My world

Desodoriza pensamentos que não cabem

Cabo

Assim, despencante


Eu tenho a parte de um

Hum mil

Agonizante


Desafino, there.

domingo, 29 de março de 2009

Abriu meu baú e em meus sonhos remexeu

Engarrafou minha solidão e escondeu no mar do seu coração

Vestiu meu jeans azul, como se não fosse meu

Experimentou meu destempero que tem cor de açafrão



Dei-lhe minha cama e meu cheiro

Compreendi sua fama em seu beijo

Emprestei minha escova e tempero

Usei sua camisa em dias inteiros



Cozinhei seus grãos

Abri seus potinhos

Sambou em meus vãos

Desatinou meus caminhos

segunda-feira, 16 de março de 2009

Te admirei, como se fosses rei
Me encantei, logo súdito me tornei

Realizas o que não sei
Pelos caminhos que não andei

Mostra o rosto do que nunca ousei
Mas por medo sempre me contentei

quarta-feira, 4 de março de 2009

woman

minhas sardas e rugas
minhas saias sem nesga
minha brancura com olheiras
você vem e me toma pelo que pareço

meus tons vivos
meus sons graves
meus dons inexplicáveis
você me retoma quando anoiteço

meu doce café
meu bom tempero
meu extraordiário pé
você me adora quando te teço

estou tua,
sempre que pela manhã caminho nua

na nossa imaginada e exclusiva rua.

tela


Explodiu o vazio em imagem, mas o balde continuou cheio.
Desta minúscula partícula celular particular não livra-te tão fácil.
Lutando na eco cincundante para sobreviver,
ao menos até o dia de partir, cujo tempo é pura incógnita.
Tempo de ter o que não há de se fazer,
nesta existência tão ausente de cores.

Escolheu hoje o preto, branco e vermelho.
Com palavras opacas, borradas, manchadas e difíceis de ler.
Era tinta vermelha, aquela que trouxe sangue à monotonia;
cinzenta, preta, e borrão de branco sobre o branco deste destino papel.

Mostrou hoje a pequena tela do que se resume a vida.
Em ondas que descendem ao nada e ascendem da linha da cor mais sem cor.
Não voltei do mar, que em olhar tornou líquida a dor.

Testemunhou a própria cor em palavrório e pincelada,
assim esbravejou a própria dor.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Dia do fico

Só fico se jurares que desta casa nunca uma lasca da parede se desprenderá
Nenhum garfo há de escurecer
O telhado não há de pingar
Planta não murchará
Lágrimas sem transbordar
Fome não assolará
Nem jogados
Nem pobres
Encolhidos
Doentes
Nem sem

Se mentires direito juras impossíveis
Mesmo que já sei o que escondes
Ficarei.

Senão
,
fico só.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Manhã

Pela manhã é quando a realidade fica mais real
O silêncio do facho de sol pela sala ilumina tudo que se foi e o que virá também
Fica nua a dureza que só encontramos na sobriedade e solidão das manhãs vazias

Eu aqui de manhã, aguardo o dia que já promete quente anunciado pelos pássaros
Com cheiro de noite, geléia e café
Este dia já anuncia chatices, prazeres e trago as tristezas
Com o cigarro que não aprendi a fumar
Essas bem vivas, da última semana
Deslocalizo-me no meu tempo

Vivo ainda minha noite recheada de manhã, pés e presenças
Presa agora por este fio de tempo presente

Se eu soubesse diria e se existisse fumaria