sábado, 25 de dezembro de 2010

herança

talvez eu quisesse 
que vc me amasse
talvez eu quisesse 
que vc me queresse

talvez eu representasse 
apenas uma ancestralidade
de mulheres que queressem
que eu te quisesse

talvez eu parecesse
ao teu lado
apenas uma mulher
que alguém queresse

talvez eu não me importasse
sobre quem queresse
a mesma coisa
que eu quisesse 

talvez elas apenas quisessem
que alguém 
nesse mundo
se queresse

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

amor de pelô

eu pensava
que de tão escravizada
sinhô me escolheria
pra sua preta

eu nem pensava
que eram tão brancas
as tetas pretas

eu nem pensava
que no pelourinho
o tempo precisava
de tantos séculos
pra passar

eu pensava
que mais branca
era a carta
que enegreceria
minha alforria
ansio pelas lambidas
que já lamberam
meus pensamentos.
tão melados.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

bebo, logo danço

bebo logo logo
bebo logo um lago
logo alago,
e alago bela

farinha de milho

uma casa deve ter
cheiro de bolo de forno

toda casa deve ter
feijão com louro no fogo
barulho de panela de pressão

a casa deve ter
aipim com manteiga à mesa
geléia framboesa

na sala deve haver vídeo game
no rádio deve tocar aquela do rei

deve ter vaso de manjericão
no quintal cocô do cão

deve ter a mim
precisa ter você

assim,
mesmo que não porte porta,
a gente pisa um chão

H2O

teu exagero,
gozo transpirado,
inunda todos os tacos
poros 
ladrilhos

após tal hecatombe 
hídrica
meu gozo escoa,
hidráulico,
ralo abaixo

- suspensa a visita do encanador -
há mulheres que respiram
uma meninice
bem no contorno dos lábios
uma sedução pueril

ainda que todos os filhos se escondam
nos pneus abdominais
nos seios fartos

os grisalhos fadam cansaços
de cuidados acumulados de muitas vidas
os olhos ora brilham lustrosos
ora brilham opacos

nas sacolas os ônibus todos
as patroas e os ladrões
de sonhos

no lábio, em seu contorno
na junção do nariz com a boca
ainda sensorialidade
de menina

peço licença ao passar por elas
com o maior respeito
pois tem que ser muito homem
para ter tanto peito

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

cheios e receios

ainda bem
anda bem cheio 
esse peito
 
depois de suas notas
notas surdas
salvas nas mudezas
de meu peito

peito meu
cheio e quieto
ganha cor e recheio
em palavras, revólveres e letreiros

e não há nada mais mundano
peito duro
bunda em cima.
ainda trepo sem precisar de escuro

(lerei só daqui uns trinta ânus)

vamos ver teu pau
o quanto dura

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

conto sem fada

nossa história
é uma anti-história de amor

tem princesas velhas
príncipes mancos
e cavalos nos barrancos

o aluguel do castelo vencido
os ratos fugidos dos porões

os amores antigos -
fantasmas

os fantasmas -
restos dos vivos

no reino tão do avesso
criado por nossas monarquias
o amor começa
quando tudo entre nós
já se acabou

mas um amor
que preenche
alguns cômodos
e acomoda
incômodos



domingo, 5 de dezembro de 2010

pelos pelos da perna

a lâmina nova
devora os velhos pelos
da canela, agora lisa

a única coisa que sei sobre você
é que gosta assim
(mesmo no inverno)

mas faço isso
para que não haja na conversa
uma só farpa de pelo

a escova de dentes,
agora solitária,
me pergunta para onde você foi

aproveita,
conta para ela

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

sorvete

gosto de gostar

de um gosto em que pensar
um gesto de lembrar
um cheiro pra devanear

gosto mesmo
de ter alguém
em quem pensar
alguém pra onde voltar

gosto de construir
por pedaço
esse troço

gosto de gostar
de um gosto
familiar

gosto de pensar
o quanto gosto
quando partes
ou quando ficas

bibir la bida

a piscina coberta do clube
faz uma pausa de parar o tempo
uma fenda
numa tarde quente

esportivos pouco velozes
dançavam nas suas águas
artificiais e limpas

a felicidade de som grave
apertava play no nat king cole

toucas, velhas e sungas
sorriam

era como se uma tela se abrisse
com um filme sueco qualquer

mas não

era a vida
acontecendo

sob meus olhos
sobre os meus narizes

o coração se enche de algum estranho
sei lá o quê

vivo

terça-feira, 30 de novembro de 2010

dezembro chove?

a noite cheira molhado
pela janela de dezembro

prédios desde nascença
- com raízes de bairro -
crescem retângulos furados
e espiam por seus furos olhos

luzes azuis
nas quadradas janelas
espelham corpos horizontais

tão logo amanhece
corpos verticais
correm atrás
de um Papai Noel em fuga

o que será que dormem?
como será que compram?
onde será que sobram?
quando será que doam?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

oração ao são joão das bolas perdidas

mais poesia porra!
mais porra na poesia!
com prazer porra!
com porra porra!

gole

ritualisticamente
tomei o último café
assim que previ o fim

um gosto leve
de fruta viva
recém despencada

agora que acabou
veio vontade
pouca, é verdade

não há como comprar
o que se doa

doa o que houver
deste último gole do café
agora já frio

a pequena colher
- com o resto líquido -
descansa sobre a pia
sem pires

(as fases da alma
necessitam 
da concretude 
dos rituais)

não há o que fazer
fique onde está
a um passo
desabará pelo mar
formado de lodo

depois da insônia
não despertará
do que não se dorme

sonhos vigilantes
imagens remontadas
filmes conhecidos

passados que te pertenciam
histórias conhecidas
rostos familiares
cheiros regulares

agora é assim
desesperos atrozes
te descaminham
de onde nem sabe
para onde foi ou
para onde vai

domingo, 21 de novembro de 2010

oxi


misi fi

é muita mandinga trazê ocê pra mim


haja vela vermeia na encruzilhada

num presta enterrá santo antônio

terreiro diz que já não vale mais

caboclo afirma que já pegô catimbó


amor de um

quando não tem dois

não há galo, galinha, ou melaço

que desata todo esse nó!

domingo poesia

será que já é a hora de pseudônimo?
será que deixei de nascer de mim?

quando será que o poeta vem?
trabalha em feriado santo?

a palavra brota bruta?
a frase já vem riscada?

neruda escrevia sentado?
drummond batia à máquina?

escrever é do tipo que se aprende?
ou será talento que vem de fábrica?

será que não sou mais eu?
ou torno-me em minhas palavras?

em todo caso assino hoje como Clara.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

post

imagina só
guardo aqui
sem tirar o pó
um postal
escrito lá
para você
lá de longe
você noutra
eu na tua


nunca leu
nunca viu
nem sabe
nem eu sei
quando foi
que o amor
pelo mapa
se perdeu

um postal
sem endereço
sem leitor
colado agora
no mural
no avesso
só a cola

ninguém vê
teu texto
tuas lágrimas
só vêem
tuas terras
fotografadas
ao longe
numa Itália
poente e só.
prometo que vou estudar
depois dessa poesia mãe.

só mais uma tá?
amigos parindo livros
outros linguajando nenéns
outros com uma floresta de árvores

uns replantando a colheita

todo mundo regando, junto.

coisa bonita essa crescência

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Bamba

Sujei no samba meu novo sapato

agora com que cara vou pro trabalho?


Foi muvuca, vuco-vuco, esfrega-esfrega

umas branca

umas preta

uns bamba

Umas geladas, suor, empurra-empurra

uns pisões

uns amassões

uns chacoalha


Foi cantoria, foi roda de causo

tinha amigo, tinha hómi, tinha caso

Pandeiro, surdo,

cuíca e política

Sete corda, atabaque,

Agogô e amor


Ai ai ai quanta euforia.

Se sua sola dissesse,

meu pé nunca esquecia.


e o chefe nem se abatia.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Café e prosa

Há a fase do costume dos corpos.
As quenturas se dividem nas cobertas. Os cheiros se fundem - é você de cheiro de mim.
Os encaixes estabelecidos tornam os dias menos fúteis e os afazeres menos inúteis.
Fase dos olhos que enxergam antes o que a boca não vê durante a conversa.
Cala a língua de gosto insosso quando se dorme um sono de gosto comum.

Os objetos testemunham o balé de corpos que se conhecem mais do que a própria carne.
As falas ecoam os corredores pendurados de neologismos e dialetos de países de um habitante só.
As cadeiras acomodam as dores gastas para que as pernas bailem melhor.
Assim livres chinelem os pés da cozinha para a sala, da sala para o quarto, do quarto para o banheiro, do banho para a vida.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

filhote de peixe

banhe-se num rio antigo
o quanto tiver que aguar.
nade nas águas
que não param de correr.
boie em suas ondas
enquanto tenha o que deixar levar.
visite suas margens
o quanto tiver o que florecer.
desemboque no mar
assim que o delta chegar.
rebata na água salobra
até quanto queira se livrar.
há uma vida de peixe
que não se pode abandonar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

boca do estômago

Não estou para papos nem opiniões
Estou para abraços, miados e arranhões
Não estou para chatos e bobalhões
Estou para bagunças e confusões

Não estou para fundo falso
Não estou para retrato
Não estou para miséria
Não estou para dieta

Estou para sonhos
Estou para amassos
Estou para poucos
Estou para engodos

Não estou para estar

(crescem proporcionalmente)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

pelo poro

Conheço seu antebraço

mais do que você pensa

Acordo seus pelos

pelo sabor de uma vida

Inundo sua quarta-feira

pra parar de bobeira

Visto ao contrário a camisa

para ver de perto seus poros


Embalo os cheiros

Envergo as noites

Chovo a cidade


Só pra mostrar que sei

mesmo que só tenha ainda

o sabor do saberei.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

pela pele

Sobre a pele, inventário de cicatrizes

Sobre o colo, constelação de pintas

Sobre as ancas, tilintar de quadris

Sob os pés, geografias psicológicas

Sob a cabeça, espremidos pensamentos

Sob a guela, abafadas lutas

Sob o peito, coração líquido

Sob as veias, rios de sonhos

Sobre o mundo, giros.
Sobre corpos, nascem.

domingo, 19 de setembro de 2010

guarda roupa

Engavetei tudo.
Etiquetei as letras
Dobrei os discos
Fracionei as blusas
Encabidei vestidos
Sacrifiquei calcinhas
Pendurei as ancas
Troquei as calças
Emaranhei as mangas
Tranquei colares
Misturei os brincos
Vesti as alças.

No armário, ao fundo,
o par de meias ainda me olha.
Não sei mais que verbo andar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

diz-me que tenho uma casa
cante-me a nova música
ponha-me no colo e sussurre
ria-me ao mostrar o giro do mundo
conte-me sobre o verão quente
leia-me um trecho inusitado
faz-me um sonho
faz-se junto

venha-me ao ventre
vem contente
aqui tem um monte de gente!


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Vinis

No toca discos do papai reativo o primeiro disco de amor, os primeiros rocks juvenis e a coleção do antigo namorado.
Num domingo qualquer de pais e mães, em casas com tempos parados e ares de berço.
Os afetos aqui analógicos, se fixam. Retrocedem a tecnologia.
A cada passo pra frente sinto que posso ir mais e mais pra trás.
Esse é o dia em que a vitrola tocou e retocou as paredes das minhas reprises.
Enquanto permanecem na sala esses homens bases de minhas marquises.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

habeas corpus

sou testemunha do que o corpo nos faz
sou cúmplice dos nossos nós
sou vítima de nossos próprios réus
sou acusação sempre que fala meu coração.
abro mão de minha defesa:
"meu corpo é testemunha do bem que me faz"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

a generosidade é prima irmã do amor

o arco-íris quase termina em mim. na sua cidade também é assim?

carpinejar acalenta e alegra a alma. coisa de quem nasce verbo.

humildade é apenas reconhecer que o mundo é o umbigo.

la luna
luando
bem lá

fri lá, fri cá, e assim vai a vida free.

por carolina garrido

sexta-poesia

vejo os Homens como pequenos insetos
é seu mínimo que conduz meu olhar
prefiro
pessoas com piolhos
vermes
nuvens
uma comunidade dentro de um organismo

é o que desinteressa que me agrada