sexta-feira, 3 de abril de 2009

Torna-te

Começou assim, devagarzinho, pelo meu dedinho.
Invadiu meus pés, subiu pelas pernas, que endureceram, desesperadas.
Meu tronco, seios, braços e mãos.
Agora os tenho alvos, gélidos neste híbrido morto-vivo.
As costas debaixo do vestido verde claro não dobram mais.
As dobras joelhos e cotovelos ainda articulam, uma parte com outra.
Bem como as dos quadris.
Quando então tu me colocas sentada ou em pé; mas sempre escolhes.
Escuto quão linda eu sou, de tão exato os caquinhos foram colados, de tão perfeitas as curvas, redondos, giros e cores.
Esquecem-me gente de tão coisa que me pareço. De gente faço sentimento, pensamento e falo.
Falo parada, fico com o conforto do não agir, do sem confronto.
Desde anteontem parou no meu pescoço. É de subir.
Cabeça de pessoa, com boca, narinas, orelhas e orifícios. Por enquanto recoberta de pele, quentura e tecitura.
Ainda decido se me resigno ou se sofro, ou se morro antes.
Procuro o Gepeto que me rogou o feitiço ao contrário.
Até lá preparo minha estante, onde moro como coiseira.
Porque desconfio mesmo que até a vida inteira viro de porcelana inteira.
Confiro agora meu sapato, sapato de boneca.

my world

My world is beautiful

Moro aqui e acolá


My world is beautif

Pago bebida barata,

gasto onde urgia.

Urgente eu nascia.


My world is beauti

Minha paisagem é o centro,

mas compartilho o interior da burguesia.

Ode ao anonimato e à alforria.


My world is beaut

Não acompanho a tecnologia,

moro estrangeira, na pátria-tempo que você não entende.

Permaneço no filme antigo,

ao som prosaico da radiola.


My world is (you know)

Espaço de coisa maior do que de gente,

gente desde que coisa. Coisa eminente.


My world

Desodoriza pensamentos que não cabem

Cabo

Assim, despencante


Eu tenho a parte de um

Hum mil

Agonizante


Desafino, there.

domingo, 29 de março de 2009

Abriu meu baú e em meus sonhos remexeu

Engarrafou minha solidão e escondeu no mar do seu coração

Vestiu meu jeans azul, como se não fosse meu

Experimentou meu destempero que tem cor de açafrão



Dei-lhe minha cama e meu cheiro

Compreendi sua fama em seu beijo

Emprestei minha escova e tempero

Usei sua camisa em dias inteiros



Cozinhei seus grãos

Abri seus potinhos

Sambou em meus vãos

Desatinou meus caminhos

segunda-feira, 16 de março de 2009

Te admirei, como se fosses rei
Me encantei, logo súdito me tornei

Realizas o que não sei
Pelos caminhos que não andei

Mostra o rosto do que nunca ousei
Mas por medo sempre me contentei

quarta-feira, 4 de março de 2009

woman

minhas sardas e rugas
minhas saias sem nesga
minha brancura com olheiras
você vem e me toma pelo que pareço

meus tons vivos
meus sons graves
meus dons inexplicáveis
você me retoma quando anoiteço

meu doce café
meu bom tempero
meu extraordiário pé
você me adora quando te teço

estou tua,
sempre que pela manhã caminho nua

na nossa imaginada e exclusiva rua.

tela


Explodiu o vazio em imagem, mas o balde continuou cheio.
Desta minúscula partícula celular particular não livra-te tão fácil.
Lutando na eco cincundante para sobreviver,
ao menos até o dia de partir, cujo tempo é pura incógnita.
Tempo de ter o que não há de se fazer,
nesta existência tão ausente de cores.

Escolheu hoje o preto, branco e vermelho.
Com palavras opacas, borradas, manchadas e difíceis de ler.
Era tinta vermelha, aquela que trouxe sangue à monotonia;
cinzenta, preta, e borrão de branco sobre o branco deste destino papel.

Mostrou hoje a pequena tela do que se resume a vida.
Em ondas que descendem ao nada e ascendem da linha da cor mais sem cor.
Não voltei do mar, que em olhar tornou líquida a dor.

Testemunhou a própria cor em palavrório e pincelada,
assim esbravejou a própria dor.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Dia do fico

Só fico se jurares que desta casa nunca uma lasca da parede se desprenderá
Nenhum garfo há de escurecer
O telhado não há de pingar
Planta não murchará
Lágrimas sem transbordar
Fome não assolará
Nem jogados
Nem pobres
Encolhidos
Doentes
Nem sem

Se mentires direito juras impossíveis
Mesmo que já sei o que escondes
Ficarei.

Senão
,
fico só.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Manhã

Pela manhã é quando a realidade fica mais real
O silêncio do facho de sol pela sala ilumina tudo que se foi e o que virá também
Fica nua a dureza que só encontramos na sobriedade e solidão das manhãs vazias

Eu aqui de manhã, aguardo o dia que já promete quente anunciado pelos pássaros
Com cheiro de noite, geléia e café
Este dia já anuncia chatices, prazeres e trago as tristezas
Com o cigarro que não aprendi a fumar
Essas bem vivas, da última semana
Deslocalizo-me no meu tempo

Vivo ainda minha noite recheada de manhã, pés e presenças
Presa agora por este fio de tempo presente

Se eu soubesse diria e se existisse fumaria

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A-tuA

em ciclo ascendente
espiral amorosa

recoberta deste suor
melodioso
que só assim ouço

derretimento comprometido
junta-me os pedaços
com toda sua ajuda possível e inesperada

tô maior que eu amor meu

domingo, 14 de dezembro de 2008

o peso que assombra as escolhas
transita em estrada incerta sobre uma motocicleta
com piloto inebriado e encantado com o que se apresenta
ao acaso, se for o caso

ando sobre minhas próprias pernas
levemente dormentes, às vezes um tanto ausente

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

MOvER

O encontro que move o mundo é movido pelo que mora e se esconde aqui,
entre as minhas mãos e seus cabelos.
Eu espero desmovida você vir, assim que partes.
Fazem parte de mim pedaços de vento que giram meu moinho
que constrói meu mundinho,
feito dos pés que se enroscam a cada limite desta moenda.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

o grande M

Menor que a pulga serve-se a criatura tolhida de suas potências, nudezas, prazeres e carnes.
Mesmo quando a fome arrebata dos pés às bocas.
Manto fumacento sem sinal de partida, ilumina qualquer sinal de saída neste caminho.
Mulher segue só, o que só seu, só sexo, com mais sol, pode servir, como serva e condessa, simultaneamente.
Mas arrepende não atender às próprias e impróprias sutilezas, mesmo que gritem em silêncio.
Mania de morder o que se aproxima desde quando se aprendeu ferida, chaga remediada e cicatrizada.
Manter como estão, os trapiches, os mares e embarcações, para o risco em controle, desejoso de jorro.
Meio viva, mesmo que morta, faces a escolher para a vida réptil na água e na terra.

domingo, 7 de dezembro de 2008

quase HAI KAI DE DOMINGO

DORMI CHEIRANDO À INTIMIDADE
ACORDO SABOR CAMA
PRA ESSE DIA MOLHADO

O SOL DA MINHA IDADE
PÕE SÓ AMOR
NESTE CORPO QUE ME FOI DADO

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

SObre SEr

Nos intervalos lutaram os que se queriam humanizados
Durante, aceitavam os que se queriam calados
Depois, desesperaram. Todos.

Entre o seu céu e a nossa terra
Os caminhantes passam
Ora vazios
Ora entretidos
Ora entre estranhos
Ora sem entranhas

Aos imbuídos de sonhos
Sempre se quiseram
Ser o que se eram.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

na selva com che

Com a idade venho aprimorando minha vulgaridade
Por simples fadiga da falsa moralidade,
que banha os contratos, os burrocráticos e principalmente os democráticos

Por simplesmente não achar possível a neutralidade
Dos bons modos, que higieniza o contato e deixa todo mundo
Com sorriso amarelo
Cara de bunda
De pastel amanhecido na vitrine

O asseio burguês é tão limpo que dá nojo
Esquiva da merda, privatiza o drama
Mas o pé sempre enfiadinho na lama


Sem frescura,
mas jamais perder la ternura!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Tecos

Sequer posso dizer não ao que não quero
Requer paciência ao que não se pode mover
Prefiro acreditar nisso, do que saber que fracassei

O que é certo é que perdi
Apenas nos lembra o buraco que é existir
Como gente neste mundo indigente e anti-gente

Não tente me fazer sorrir...sem mundo faz-de-conta
O fatalismo que cedo conheci me joga no devir
Mesmo que cabisbaixo, com as mãos sujas de lama

Nem deus sabe
Cato meus tecos hoje
Tento, juro que tento inteiro amanhã,
te encontro lá, lá no bo-teco!

Lá na rua da consolação

domingo, 30 de novembro de 2008

je suis

já me experimentei coisa
já me experimentei gente
já me dupliquei em mais
já saí e voltei de mim
já não me pertenci
já me agarrei ferrenho
já me vi na lata do lixo
já me vi em berço de ouro
já me envaideci
já me encarneci
já me ri
jamais me vi
tão de perto assim.

lá o sol é em si,
sem dó.

deseixo

nunca entendi o que vim fazer aqui
dou sentido ao meu resgate
com cada palavra, escrita, dita, dançada e tocada
que desconcretiza esta cadeira, esta mão, esses olhos
ao aprofundar a fenda poética
que me faz humano

não quero perder o bicho que sou
que urge no corpo, condutor polarizado de minha energia
quentura, suor, sangue e víscera rósea
ornitorrinco esquisito, fragmentado e descompreendido que me torno
com pena, bico e nadadeira
correndo em água para o nada por cansaço do tudo

deixo-me aqui
sem eixo

Cantar

Cantava por todos os cantos
Porém nunca achava quem encantava
O pássaro do desdém
pousou com ousadia e ficou

Cantava aos mais infames
Cujo desencanto tornou coração em pedra,
Catei a flor da sensibilidade e murchou
Tentativa estéril em solo que quer infértil

No canto certo,
canto e encanto o meu mundo desenganado.

à Piaf

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

roupão sono. exaustão
energia esvai. esforço acorda
parece que escorri pelo ralo
ainda assim posso ser o mais bonito

Dedico às amigas issas

Em meio às Bardot(s) e Ana(s) que há em todas nós
Construo, destruo e reconstruo a mulher que faço de mim
Nas ladeiras de Santa Thereza, pudemos nos ouvir profanas
De puta que desejamos de nossas necessidades mundanas

O coração amornado pelo melhor chá de camomila
Que anoitece a dor, que tece ternura do olhar, no cuidar
Às vezes nós mesmas nos enchemos de ser mulherzinhas e somos então crianças
Entregues à brincadeira, que não faz fronteira do eu com você

Só agradeço por poder viver esse intenso amor
De pessoa em encontros caminhos
Criação de poesia com seis mãos
Na paz, na dor, mas sempre com flor


Lenine, Seu Jorge e Ney, fica para outro dia....

sem

Tenho temor de perder o amor
Por esta vida que já sei de cór
Não vivo sem o seu fervor,
embora já sinta muita dor

Quando chego, já te espero de ontem
Apesar de amanhã já esquecer de hoje

Pudera domar a fera,
que longe de mim impera

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

na lida do diaque me consome,que nem te liga.quem sabe aprendo um dia.
mundo povoado esse meu,estímulos confusos e exagerados,por pura necessidade:que é viva!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

high verso tech

Quando eu era criança não tinha computador (cara de espanto!)
Quando adolescente não tinha internet (óóóóóó!), nem blog

Quem inventou essa máquina
Inventou o tempo

Falou que ia passar
Eu não acreditei

Renasço real no virtual
Espremendo-me em atual

NÃO

SOU VERSO
POR INCOMPETÊNCIA DE PROSA

SOU SÓ
POR INAPTIDÃO DE JUNTO

SOU CRIANÇA
POR HAVER ESQUECIDO CRESCIDO

SOU COMILÃO
POR DESCONTROLE DA GULA

SOU REMÉDIO
POR NÃO HAVER PREVENÇÃO

SOU ATRASO
POR DESISTIR DO TEMPO

SOU VIOLÊNCIA
POR DESAPRENDER CARINHO

SOU EGOCENTRISMO
POR ESQUECER DO OUTRO

SOU DISFARCE
POR PURA DOR DE SER-ME

SOU MEU
POR NÃO CONSEGUIR SEU

DESCREVO A FALÊNCIA
PARA ENCONTRAR DECÊNCIA
EM TANTA INCOERÊNCIA.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

algo entre prática lesa e lépida
pra você.
pra mim
nem sempre sou assim
prefiro repouso no jardim

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

CEM DIAS

Um homem no metrô cuspiu no chão, para todo mundo ver
Transparentes transeuntes no passeio
A greve dos bancários anuncia chove chuva, que toma o espaço em música
O garçom do café é o homem mais lindo que já vi e desejei

Tem dia que é só mais um depois do outro

Rock bem alto no fone de ouvido
Para suportar o tédio do que repete, chato no cotidiano
O olho vê o que se sente
Em combate à anestesia imposta do viver

Vem dia,

Antes da chegada da noite fria

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

MONÓLOGO


Platão elucubrou
Sócrates meteu-lhe um gol

Freud interpetrou
Lacan interditou

Nietzsche humanizou
Moreno encenou

Meu ser-aí se encantou

Criatividade encaixotada

Dentro da caixa havia um líquido,
escorria pelas frestas,
cortava caminho

Tomava a forma sem forma de fora,
enquadrava a forma dura de dentro.

O tempo era seu aliado e inimigo.
Quanto mais resolvesse correr mais escorria,
mas mais livre brotava.

Planta, azul, tatu
e nova forma tomava,
ora mole ora dura.

Se livre, inútil.
Quem sabe pra quem?
Ninguém.

Se alguém, presa
e encomendada.

domingo, 9 de novembro de 2008

O tratado que escrevo se dissolve no segundo seguinte
A teoria que explica a prática se desatualiza a cada nova ação
Minha ciência me confunde a cada tentativa explicação

A compreensão já nasce desentendimento pelo descompasso de tempo
Entre o que é arrastado e o vento

Professor cristaliza o que tenta significado
Quando versa oral o estratagema que exemplifica no poema
No entanto logo simplifica o que se sente de complicado

Guardo meu não saber com orgulho e certo descaso
mergulhei hoje
mergulhei fundo
tão fundo que dói
tão dói que rói

rói de amor e de flor
flor de pântano
pântano com raiz
raiz que se foi
foi-se para o centro da terra
lá eu acabei
acabei de começar

Desapreço

A cada passo me pergunto se certo ou descaminho
A cada erro me pergunto se destino ou cegueira
A cada olho uma visão

Porque em cada coração, em cada tempo, em cada lugar
uma desilusão
como alusão apológica aos que virão

Surge como verso avesso na contra-mão
Quem escreve já desacredita
Deixa a solução para quem fica
Curtir uma tristezinha, é bom
Entrar na euforia, eu gosto
Sentir o sol do dia, preciso

Fala para a dona Terezinha
que hoje é dia
de bolinha de sabão!

sábado, 8 de novembro de 2008

Para haver saudade, lembrança
Para haver lembrança, que tenha acontecido
Para ter acontecido, ter acabado

Por isso despedimos
Pessoas: se eternizam
Em cada areia dessa praia
o outro erudição, eu criação
o outro acúmulo, eu transbordo
o outro eterno, eu instantâneo
o outro etéreo, eu consistência
o outro avesso, eu destempero

o outro sou eu

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

pitadas

O que há de Oslo em Alagoas?
O que há de poesia na prosa?
O que há de dinastia na anarquia?
O que há de democracia na alforria?
O que há de matemática na gramática?
O que há de tântrico no cosmo?
O que há sereno no trânsito?
O que há de Augusta na Cidade Jardim?
O que há de começo no fim?
O que há dele nela?

O que há de eu em mim?

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

HÁ BELEZA NAS BOCAS ENTRE ABERTAS

NA FIGURA LÉPIDA FORMADA AO ACASO

NO DESENHO MINOTAURO QUE SABE EXATA FORÇA

NO SOM BRINQUEDO DA MELODIA QUE IMAGINAMOS JUNTOS

NO SOL LUZ AMARELADA ANUNCIANDO O POENTE

NA DESCRENÇA DISCRETA DA VIDA VAGA

NA.........N ..........
HÁ BELEZA BEM AQUI!

Textículo

O bebê precisa da mãe. Dizem alguns que a chupeta, dedo, mamadeira, são o substituto que ele arranja para a mãe, que de pele, vai ficando cada vez mais ausente. O mundo cada vez mais presente. Como um primata, o bebê humano é o mamífero que mais tempo demora para independer. Parecido com ele somente nossos primos distantes, os chimpanzés. O mundo aos poucos vai tratando de cuidar como pode e os humanos nele se agarram da mesma forma. Cada um pode de um jeito. Sabe que o mundo por vezes não trata seus humanos lá aquelas coisas, condição recíproca dos humanos para com o mundo. Pensei tudo isso para dizer que hoje me deparei com um homem sem mundo, deitado na mureta do supermercado, dormindo ao sol chupando dedo. Tive vontade de mãe por vê-lo vontade de filho.

sobre os anos

Nasci quando ouvi o tirlintar dos seus quadris,
quando logo olhou para mim,
acariciou com os olhos,
fez-se presença no ar,
com todo o peso do tamanho exato do afeto bom.

Nasci mais uma vez,
como nos últimos anos tenho feito,
a cada morte, petit ou grand,
bleu ou blanc
no espaço entre as presenças e ausências.

Nasci como pseudônimo,
rascunho esboçado em palavras, na superfície delas,
com ligeira melancolia aquarelável, diluível,
nos dias-noites,
é nas legendas que sobrevivo....
Traduzindo-me.

Perdão, obrigada e para você também.