domingo, 2 de maio de 2010

Primeiro de maio

Abril foi um mês que ninguém viu - fechou as aspas.
Houve mentira em primeiro de abriu e quem não viu mentiu.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

tulipa


As suburbanas tulipas
fazem tanto por trás de sua timidez.

Nós, cheios e urbanos,
nos espalhafatamos em vermelho e azul
- mas sem caule algum.

Seguras, elas nos olham com a compaixão
de quem vem ao mundo para mostrar
o que é ser dotado de beleza e sensatez.

quarta-feira, 31 de março de 2010

como pude pensar em algum dia deixar minha paixão se apaixonar?
como fui acreditar que com você era possível sem medo sonhar?
como me deixei encontrar em seus braços o fundo do teu olhar?
como lhe fiz o café mesmo sabendo que a manhã não podias adoçar?
como comer a vida sem saber a dor do gosto de experimentar?

conjuga-me

comeste toda uma constelação de palavras do idiomaterno (e engoliste a mãe também)

moram em ti, em cada prega,
em cada célula de banha,
a se acumular num corpo-envelope
- o próprio corpo cheio de letras,
histórias (sem pé nem cabeça, com começo/meio/fim, e sem fim)-
histórias tuas,
histórias alheias,
emprestadas, roubadas,
imprestáveis

elas se aglutinam, se unem,
se engancham umas às outras
gritam em forma de som,
vomitado pela porta-boca sem parar

meus ouvidos e penicos perdidos - já sem ouvir
ainda tentam acompanhar seus quilômetros discursivos funestos
(esses se fazem para que ninguém os ouça)

acabaste com as palavras do mundo
e as crianças não aprenderam a brincar de falar
- essas então devem ser as últimas palavras

eu prestes a descobrir sua palavra-chave
que cala a porta da tua loucura sem cura
e abre a janela da tua alma - talvez pouca e oca

segunda-feira, 29 de março de 2010

repouso

procuro o abraço que um dia tivera

aquele de deixar o corpo repousar, esmorecido
entregar o coração pranteado, no peito conhecido
deixar-se enterrar em braços de canduras e afagos
num envolto quente, de soprar na alma

aguardo aguda a volta de um futuro que ainda não tenho

domingo, 28 de março de 2010

costureira

se um poder me fosse facultado,
escolheria o de costurar o tempo:

câmera lenta
amarrar ponteiros
pular alguns dias
repetir outros
encurtar as horas
congelar momentos
acelerar outros mais
juntar pedaços do relógio
diminuir algumas esperas, mas só algumas
andar durante o outono, sem a estação mudar

só pra poder reviver, reaver, reparar, reatar
como se tivéssemos tempo de, como num rascunho, poder ensaiar

segunda-feira, 22 de março de 2010

Quem já sentiu a dor que rói o presente pelas beradas?
Aquela que prepara o futuro, esse que chega rasgando, sem uma palavra perguntar.

O passado agora, esgarçado pelo tempo, força a costura por onde a agulhar puder entrar,
seja no peito, seja de saia, seja calção, seja ao som samba-canção.

Essa duração líquida mostra onde eu não deveria estar, quando sem ter em que chão pisar me recolho em qualquer lugar.
Continuo, continuo sempre a pulsar...como um coração trôpego, acostumado a lutar.

quarta-feira, 17 de março de 2010

quero-quero


Dos poetas quero só as superfícies palavras

Dos humanos quero o pó do que toca a vida ao vivo


Quero me indignar com as não-palavras dos carnívoros humanos


De você quero o silêncio soturno das noites ensolaradas

Das tuas mãos, humildemente todos os dedos

Das tuas asas, todos os pássaros

De mim, paciência


Não quero palavras suas por não falar tua língua (apenas ainda não)


Quero, mas quero tudo o que sobra

Até onde vai o encontro de nossas próprias bordas.

ESTEIO

Venho senguindo as pegadas em forma de coração. E quando pego, me escapo, para outra e outra, e mais e mais para dentro do interior de algum país.
Os ossos a chacoalhar, como precussores do que as mãos têm a soar, atravessam o campo de mansidão.
Perdi a mão, que agora deve estar lá pelo lugar dos pés. Juntos, andam a esmo.

Quando pousar, te espero para arrumar a casa. Não sei por onde entra, nem por onde sai.
Onqotô aqui no meio? Toda cheia de carne e olhos, vejo a luz d'ouro sobre o centeio.
Faço um lamento baixinho, com cordas de aço e vozes de fado.
Contínua e ibérica, aqui mesmo na américa, sinto a mutação de grãos sem terra.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

sobre corpos, viveres e a invenção do tempo

No dia em que me casei, casei comigo e contigo.
Dancei todos os sonhos para dentro dos livros comuns.
Engarrafei as vontades que conheço e não conheço junto às uvas suas 
- essas que nunca envelheceram.

Vesti as melhores noites nas roupas desnudas das tuas bundas.
Ouvi os primeiros cabelos brancos enquanto a coberta dormia.
Li alto sem que você escutasse os contos que minha cabeça produzia.

As rugas cravavam nessa terra nosso caminho - agora banido.

O sapato vermelho ainda calça minha sede de viver, 
só que num mundo quadrado e vazio.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

às vezes padeço de desistência. eu mal entendo.
são três da manhã. eu mal me lembro.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ontogênese

Resido num denso invólucro visceral, 
com capacidade de mobilidade espacial, 
perenidade temporal e adaptação funcional.

Um ser bípede, mamífero, 
de gênero feminino, 
corporificado em formas e sensações visíveis e não visíveis. 

Imerso num mundo de símbolos aleatórios e caóticos 
que mediam, mas em nada remediam.

A vida mesmo é medida pela quantidade de arrepios, 
a evolução dos suspiros 
e o alcance dos sonhos.

(Esse versa a versão científica de mim).

sábado, 30 de janeiro de 2010

Idos vinhos


Aprendo com o acompanhar lento das taças a amontoar.
Essas mesmas que ouvidos hinos os vinhos vieram a soar.

A presença quente surge de repente e depois se faz carne.
Quando olho o olho sinto um cheiro de braço forte.

Enquanto os livros nos olham, saltam palavras de delicadeza.
Eu me esvaio em prosa pela mesa. Em pedaços e inteira.

Filogênese

Sobre os dentes as solidões se emplacam.
Multiplicam as multidões de bocas ocas.
As narinas, por assim terem nascido, têm uma a outra.
Os olhos ouvem, sempre que podem, juntos.
Um pé fincado na incongruência e outro na incerteza.
Bem vindo ao reino.
Humano.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

se houvesse uma profissão seria estivadora da alma.
se houvesse um livro se chamaria inventário de cicatrizes.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Tenho certeza de que essa rua era um rio.
De que minha juventude transita rumo ao oceano.
De que minhas costelas grudam na calçada.
De que a inocência é um cavalo manco.
De que o fogo se apaga antes mesmo do vento.
De que a luz ilumina partes do que não se vê.
De que o encontro falseia com astúcia o que se quer minguar.
Mas a certeza de que a lua vem me olhar, me faz viva em qualquer lugar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

RADICAIS LIVRES

escutei tão bem o papai e mamãe diziam que hoje sei exatamente quando mentiam, quando tomo gosto pelo proibido.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Há

Há porções de teu cheiro ainda em cima da pia.
Conservo como está.

Ainda há café da tua boca na mesa da cozinha.
Misturo com farinha.

O teu cabelo ainda há no meu devaneio.
Enxáguo por inteiro.

Há solidão ainda em tua companhia.
Desisto do dia.

Há uma casa sempre precária, ainda que presa em teus dentes.
Feita de tijolos permanentes.

Agora,
ainda agora, já não há mais.

Te london, love

Nem imaginava o quanto te inundaríamos, com nossos vícios e ofícios. Ocupando todos os orifícios, mesmo aqueles que sequer tinha visto.

Teu tecido azul ou cinza, esse mesmo que cobre um rio, determina meu sorriso (iluminado), sempre com algo a sonhar.

A fenda no tempo apressado se abre numa sexta-feira quando se levanta em cima dos meus olhos a ponte móvel. Ela te jorra sobre os turistas estupefados e os meninos loiros engravatados.

As veias suas de tuas ruas continuam ininterruptamente me levando a algum lugar. Quando me deparo com o mais sagrado do teu altar.

As vidas transcorrem cegas pelos corrimões, de subidas que descem escada abaixo, até para debaixo do solo. As rainhas se desencontram nesta estação.

Seus trilhos e luzes me abusam de tanto que me olham, zelam e levam.

RADICAIS LIVRES

Num sei o que tu viu naquela nega....que sobra ni mim aqui na região das ancas e da bunda. Tonto!

RADICAIS LIVRES

O trabalho existe primeiro para acreditarmos que existe o tempo. Depois para encontrarmos razão em alguma coisa. O amor entre nós existe para acharmos que existe algum motivo que nos faça trabalhar. Mas a galinha veio antes de tudo isso.

RADICAIS LIVRES

Não estou aproveitando sua companhia, estou combatendo minha solidão.
Parece agressivo? É o mais intenso do meu amor, uma proteção que te vacina contra o pior.

RADICAIS LIVRES

A fama serve para mostrarmos a bunda em plena forma no jornal do metrô e trazer dinheiro para que compremos a mais confortável das cadeiras para descansá-la. E não há nada mais útil.

RADICAIS LIVRES

Mais do que um marcador nasce uma coluna onde, vértebra por vértebra, liberto toda a radicalidade que deve ou não ser levada a sério.
Pensamentos contra o envelhecimento mental, caso sua cabeça pense sempre do mesmo jeito, fazendo as mesmas sinapses.
Profilaxia contra o alemão, ele mesmo, o Alzheimer.
Se não cair bem tome um anti-ácido, ou bote pra fora o que incomodar.

sábado, 26 de dezembro de 2009

não penso.

a distância me desmonta a memória.

o novo me gruda com a cola velha.

prefiro não pensar sobre o que tô pensando....

procurei groselha (vitaminada) milani e não tinha

pra remediá quaqué negócio (de barriga d'água a parafuso sorto) os dois S's de ouro: samba e cerveja

depois do almoço, antes do resto....que nem sei pra onde me leva. sei que me encanta.

às vezes acho que estou num filme de almodóvar...com direito a todas as tintas.

certamente vim ao mundo antes mesmo de eu nascer

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A alegria do mundo talvez more na luzinha roxa que apaga e acende.
A alegria sem fundo fica na esquina para aquela rua larga cheia de flores.

A alegria corada se estampa no rosto que encena eros em pleno domingo.
A alegria cortada experimentou o sabor novo do sorvete de graviola.

A alegria é um pisca-pisca.
Quando penso aceso, já está apagado.

Samba tarde

Madrugada entrou piscina adentro de trampolim.
Do jeito mesmo que você acordou a criança que mora em mim,
fazendo cócegas nos anões do meu jardim.

Se perco a chave vou pra Paris

Tive que mentir pra mim durante sua ausência.
Rumino a lembrança de você dentro do meu braço,
Quando de manhã eu não queria dar nenhum passo.

Se ando descalço vou pra Berlin

Pela minha janela chegou o sol novo de um verão conhecido,
para eu em vão aproveitar o quente dos seus dentes.
Mordi macio o tempo que durou tão rapidamente.

O ônibus agora me leva para o centro vazio, na cidade que se perdeu de você.

Li

A palavra que conheci termina em você.

Tu sempre estava ali no fim da brochura,
no plim do meu telefone,
na aba do fim do livro.

Se te perdia no asfalto, escrevia assim,
sem direito a resposta,
gritando no vácuo entre a chama e a vela.

Até que me pego insone, bem no meio do fim.
No fim do ano que nasce antes mesmo que acabe a dor,
a própria que já sei de cór.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

reguei de preguiça esta manhã colorida, farta de espera.

quando vejo então a flor parida de negro em dor,

sem espinhar o dedo, nem em sonho (depois do pote de mel).

Não esqueço o azul da colcha do hotel.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

câmara de ar

agora, recomposto meu bom castigo, conhecido como carcaça de cólera
escorre o rio da esperança (mais caldaloso do que no sonho seu)

sem alfinetar nada nem ninguém me deixo estar
às vezes com pedras a me estranhar

miolos sobre a luz, olhos na face, desconfio
para que o bom me olhe de frente sem minha roupa queimar

domingo, 22 de novembro de 2009

feno

As unhas, recobertas de um rosa antigo, põem-se a cantarolar sobre o andarilho vestido.
O ar calorento logo atrás se alardeou em cheiros.
O suor doce das mãos revela o casamento alho-cebola e ensopa a carteira.

Dentro do vidro vão-se as barbas, exageros e penhores, vindos de paletó poído.
Sentado sobre a cadeira de cinquenta séculos e dez mil histórias, os dedos repousam a tinta de jornal.
O olhar com fundo de infância solta acompanhou o canário livre de fora sem pestanejar.

O baile do clube - arraigado na tradição do interior de cada um - promoveu naquela noite desencontro eficaz.
O fulgaz pôde ser eternizado na barra da saia (abarrotada de sonhos) apenas por vingança acumulada de gerações passadas.
Entregues aos sortilégios das esquinas, quantos santo antonios ainda terão que enterrar?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

madonna

Tu não me vês. Enxergas uma das mulheres de Murilo, sereia de peitos largos.

Quando jantamos, roubas em mim o teu passado (ícone máximo do brasão de teu país).

Acolhes beatificado meus pedidos futuros, próprias promessas que fizestes aos santos teus - na catedral mesma que te serve, e a uma nação.

Continuo a guardar na segunda gaveta do sagrado continente o par de meias, antes nas mãos. Lá onde mora a estátua da grande mãe.


(autoria de Cibely, colaboração de ZEM

http://www.oarmazemdaalma.blogspot.com)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Change du peau

Eram pra ser botas naqueles vestidos.
Eu estive ali tão vestida naquele que não me cabe mais.
Ainda me botam essas que me servem, que vivem a apertar, dedo a dedo.
Tento meu espelho - ainda o mesmo - quando desnudo os cabides. Agora vazios, dependurados em meus medos. (Esses sós, um a um).

De sol a sol, olho o varal e valho o que vejo. (O que minha vista vestia em ti).
Meias inteiras molhadas, vestes meio úmidas e camisas tuas esturricadas.
Vestidos passados já furados.

Costuro a dedo, prendendo cada linha a cada furo, o passado no amassado.
O ponto presente desse vestido enviezado.
Teço por agora pra esse vermelho, que ao nascer fio, do frio se esquece.